Lisboa celebra Burle Marx no MAC/CCB

Passei um final de tarde no MAC/CCB, em Lisboa, mergulhando na exposição Lugar de Estar: O Legado de Burle Marx. Saí de lá com a sensação de que suas obras não pertencem apenas ao passado: atravessam territórios e tempos, transformando a forma como percebemos a paisagem ao nosso redor. Cada sala revelava mais do que jardins: eram ideias, cores, formas e gestos que traduzem o olhar de um verdadeiro inovador do século XX.

Considerado um dos mais visionários paisagistas do século passado, Roberto Burle Marx mudou a forma como o Brasil passou a olhar para seus jardins, praças e para a própria identidade natural. Destaque do modernismo, não era arquiteto de formação: estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Talvez por isso tenha desenhado paisagens como quem pinta, com ritmo, cor, gesto e intenção.

Filho de Cecília Burle, pernambucana de ascendência francesa, e de Wilhelm Marx, judeu alemão, cresceu cercado por referências culturais diversas. Mas foi na flora brasileira que encontrou sua verdadeira revolução. Nos anos 1930, tornou-se pioneiro ao utilizar plantas nativas em projetos paisagísticos, rompendo com o modelo europeu que dominava os jardins da época. Ele não apenas introduziu espécies tropicais; afirmou uma linguagem própria, semeando brasilidade no espaço urbano.

Exposição Burle Marx  / crédito: Fabio Cunha

A exposição, desenvolvida em colaboração com o Instituto Burle Marx e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, revela a dimensão de um criador multifacetado: paisagista, pintor, ceramista, músico e ecologista. Com mais de dois mil projetos realizados em parceria com sua equipe, Roberto via o jardim como espaço de fruição estética, experiência sensorial e afirmação cultural.

Uma frase sua, apresentada na mostra, sintetiza essa visão:

“Um jardim é o resultado de um arranjo de materiais naturais, obedecendo a leis estéticas e entrelaçado com a visão do artista, sua experiência passada, suas incertezas, aflições, suas tentativas, seus erros e sucessos.”
Roberto Burle Marx

Roberto Burle Marx – (1909-1994) / Crédito: Claus Meyer / Tyba

A visita tornou-se ainda mais instigante com a conversa realizada no âmbito da exposição, moderada pelo arquiteto João Belo Rodeia. Os arquitetos paisagistas Aurora Carapinha, Catarina Assis Pacheco, Filipa Cardoso de Menezes, João Gomes da Silva e Victor Beiramar Diniz refletiram sobre o legado do mestre brasileiro e sua atualidade. Ficou evidente que Burle Marx não pertence apenas ao Brasil, pertence ao debate internacional sobre paisagem, cidade e cultura.

Ministério da Educação e Saúde e os guaches de Burle Marx, (construído entre 1937 e 1945) no Rio de Janeiro / RJ Burle Marx utilizava guache em suas pranchas de projeto para expressar cores, volumes e texturas das plantas e do espaço.

 

Terreiro de Jesus, Salvador Bahia Roberto Burle Marx

 

Porta de entrada do Pelourinho e coração do centro histórico de Salvador, o Terreiro de Jesus é uma praça singular, marcada por monumentos históricos de grande relevância e por uma atmosfera que revela séculos de história e cultura da cidade.

A curadoria estabelece também um diálogo instigante entre o legado de Burle Marx e a criação contemporânea em Portugal. Obras de Juan Araujo, Filipe Feijão, Mónica de Miranda, Fernanda Fragateiro, Lourdes Castro e João dos Santos Martins expandem a discussão para temas como arquitetura moderna, ruína, jardins invisíveis e coreografia do espaço. A exposição não se limita à celebração; propõe continuidade. É, de fato, uma conversa viva.

E é impossível estar em Lisboa sem pensar na ponte simbólica que une Portugal e Brasil através da pedra portuguesa. O célebre desenho de ondas do calçadão da Praia de Copacabana nasceu da tradição lisboeta, inspirado no pavimento da Praça do Rossio. Burle Marx, ao lado de Haruyoshi Ono e José Tabacow, ampliou esse motivo e transformou-o num painel monumental em preto, branco e vermelho, integrado à vegetação e à escala da orla carioca. O que era padrão ornamental tornou-se gesto moderno; o que era herança tornou-se reinvenção.

Do Rossio a Copacabana: Burle Marx e o icônico desenho de ondas que une tradição portuguesa e modernismo brasileiro Por Chester from Toronto, Canada – Lisboa, CC BY 2.0,

Ao deixar o museu, compreendi que Burle Marx nunca projetou apenas jardins. Ele desenhou formas de pertencimento, criou paisagens que moldam identidades e ensinou-nos que estar num lugar é também uma experiência estética.

Cinco lugares para visitar e conhecer o legado de Burle Marx:

Praia de Copacabana – Rio de Janeiro
O icônico calçadão em pedra portuguesa, símbolo do modernismo tropical.

Parque do Flamengo – Rio de Janeiro
Uma das maiores intervenções paisagísticas do século XX na América Latina.

Conjunto Arquitetônico da Pampulha – Belo Horizonte
Integração exemplar entre arquitetura de Oscar Niemeyer e paisagismo moderno.

Palácio do Itamaraty – Brasília
Jardins que dialogam com a monumentalidade modernista da capital.

Sítio Roberto Burle Marx – Barra de Guaratiba (RJ)
O laboratório vivo do artista, Património Mundial da UNESCO.

Sítio Roberto Burle Marx crédito: Oscar Liberal IPHAN

Lugar de Estar: O Legado de Burle Marx
Museu MAC / CCB  – Museu de Arte Contemporânea
Lisboa – PT
até 5 de abril de 2026 10:00 às 18:30
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