“Eu nunca pintei sonhos. Pintei a minha própria realidade.” A frase de Frida Kahlo serve como fio condutor para duas grandes experiências culturais em Nova York. No MoMA, a exposição Frida e Diego: O Último Sonho, em cartaz de 21 de março a 12 de setembro, reúne obras centrais da coleção do museu assinadas por Frida Kahlo (1907–1954) e Diego Rivera (1886–1957), lançando um olhar sensível sobre a produção artística e a complexa relação criativa do casal. Em diálogo direto com a mostra, o Metropolitan Opera apresenta a estreia de El Último Sueño de Frida y Diego, de 14 de maio a 5 de junho, com direção da coreógrafa brasileira Deborah Colker.
Frida começou a pintar em 1925, durante a recuperação de um grave acidente que marcou definitivamente sua vida. A partir desse momento, sua obra passou a refletir experiências íntimas, dores físicas e conflitos emocionais, transformados em uma linguagem visual intensa e profundamente pessoal. Seus autorretratos, longe de serem exercícios de vaidade, tornaram-se instrumentos de investigação sobre identidade, corpo, pertencimento e resistência.
Em contraste com o movimento muralista mexicano, representado por Diego Rivera e seus contemporâneos, Frida escolheu a escala intimista e o relato autobiográfico. Enquanto os murais exaltavam narrativas coletivas e ideológicas, suas pinturas revelavam vivências individuais, emoções cruas e uma abordagem singular da condição feminina. Ainda que politicamente engajada, sua arte nunca se submeteu a discursos programáticos.
A cultura mexicana, no entanto, ocupa papel central em sua obra. Frida incorporou referências indígenas, elementos da arte popular e formatos tradicionais, como os retablos, além de construir uma imagem pública marcante por meio de vestimentas e adornos que afirmavam identidade e ancestralidade. Essa fusão entre vida e obra contribuiu para consolidar sua figura como um dos grandes ícones culturais do século 20.
No MoMA, esse legado é apresentado sob uma perspectiva contemporânea, destacando o diálogo artístico entre Frida e Diego e revelando como suas trajetórias se cruzaram, se tensionaram e se influenciaram mutuamente. A exposição propõe uma leitura que vai além do mito, enfatizando processos criativos, afinidades estéticas e diferenças fundamentais entre os dois artistas.

Frida Kahlo. My Grandparents, My Parents, and I. 1936 foto: divulgaçã0
Essa mesma relação ganha forma lírica no palco do Metropolitan Opera com El Último Sueño de Frida y Diego, ópera que marca a estreia da compositora Gabriela Lena Frank no Met, com libreto do dramaturgo Nilo Cruz. Inspirada no mito de Orfeu e Eurídice, a obra imagina Frida retornando do submundo, no Dia dos Mortos, para um último encontro com Diego, um momento de reconciliação simbólica entre amor, arte e memória.
A mezzo-soprano Isabel Leonard interpreta Frida, enquanto o barítono Carlos Álvarez vive Diego Rivera. Sob a regência de Yannick Nézet-Séguin, a produção se destaca pela força musical e pela encenação visualmente expressiva, diretamente inspirada no universo pictórico do casal. A direção e coreografia de Deborah Colker acrescentam movimento e teatralidade, criando uma experiência que transita entre realismo mágico e emoção visceral.

Frida Kahlo
Self-Portrait with Cropped Hair
1940 foto: divulgação
Entre galerias e palcos, Nova York se transforma em um cenário privilegiado para revisitar a obra e a trajetória de Frida Kahlo. A exposição no MoMA e a ópera no Metropolitan Opera oferecem leituras complementares de uma artista que transformou a própria vida em arte – e cuja realidade, pintada com coragem e intensidade, segue atravessando gerações e fronteiras.





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