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Esqueça só a carne e o vinho: existe uma Rota do Queijo no Uruguai

Quando o assunto é gastronomia uruguaia, carne e vinho costumam roubar toda a cena. Mas há uma tradição paralela, construída ao longo de mais de um século e meio, que a maioria dos viajantes brasileiros ainda não descobriu: a produção artesanal de queijos. São cerca de 800 produtores espalhados pelo país, 80% deles concentrados nos departamentos de San José e Colonia, herdeiros de uma história de imigração europeia que hoje já virou roteiro turístico oficial: a Ruta del Queso.

“Quando o viajante brasileiro pensa no Uruguai, pensa em carne e em vinho”, resume Alejandra Cabrera, referência em turismo gastronômico do Ministério de Turismo do Uruguai. Segundo ela, a tradição queijeira do país, com mais de 160 anos e reconhecimento internacional pela qualidade dos sistemas pastoris, não é um detalhe da gastronomia local, mas um de seus pilares.

De onde vem essa tradição

A história começa em 1861, quando imigrantes suíços, alemães, austríacos e alsacianos, fugindo de perseguições religiosas e políticas na Europa, se instalaram entre o leste de Colonia e o oeste de San José. Antes deles, colônias como Nueva Helvecia e Colonia Valdense já haviam trazido as chamadas “granjas modelo”, que combinavam agricultura, fruticultura e criação de animais e mudaram a paisagem rural do país.

Entre 1860 e 1870 surgiram as primeiras queijarias artesanais da região, com infraestrutura equivalente à europeia da época. No século XX, o Estado uruguaio passou a regularizar terras para famílias rurais, consolidando o modelo cooperativo que os produtores locais mantêm até hoje.

Ruta del Queso foto: Divulgação

Os queijos que valem a parada

Cada trecho da rota tem sua própria especialidade, e vale planejar a viagem em torno delas:

  • Queso Colonia. É o queijo símbolo do país e o mais consumido internamente, criado em 1861 pelos primeiros colonos suíços que se instalaram no oeste do território. De massa semidura e com os característicos “olhos”, nasceu do encontro entre técnicas europeias, o leite e o clima locais – uma combinação que se tornou um dos pilares do patrimônio culinário uruguaio e que, décadas depois, ajudou a dar origem à própria Ruta del Queso.

    Queso Yamandú. Semiduro e levemente cremoso, foi desenvolvido na Escola de Laticínios do departamento de Colonia e viveu seu auge de popularidade nos anos 1950. A tipificação oficial veio em 1968, pela Granja La Cumbre – queijaria de Nueva Helvecia que segue produzindo com o método tradicional até hoje. É o parceiro clássico do dulce de membrillo no tradicional postre “Martín Fierro”, um dos doces mais queridos da mesa uruguaia.

    Queso Zapicán. Também originado na Escola de Laticínios de Colonia, é um queijo autóctone de massa lavada, com formato de paralelepípedo e cerca de 2 quilos. Hoje é produzido por queijarias artesanais como a Landkäse, em Barrancas Coloradas, a poucos quilômetros de Nueva Helvecia – uma boa desculpa para incluir a pequena localidade no roteiro.

    Queso Termal. Um dos queijos mais curiosos da rota: é elaborado com leite de vaca da região de Paysandú e com as águas termais salgadas de Almirón, descobertas por acaso nos anos 1940, quando perfurações em busca de petróleo encontraram, no lugar de hidrocarbonetos, fluxos de água quente vindos do Aquífero Guarani.

    Queso Chester. De origem inglesa, ganhou identidade própria na Granja La Cumbre, queijaria fundada em 1870 com a chegada de mestres queijeiros suíços e alemães. A receita quase se perdeu no tempo, até que, em 2019, um dos herdeiros da quinta geração da família encontrou o caderno de receitas do bisavô, de 1921, e resgatou o método original. Levemente picante e cremoso, o queijo matura envolto em tecido por pelo menos três meses, um verdadeiro reencontro geracional com 150 anos de tradição queijeira familiar.

    Queijo Chester foto: Divulgação

     

Para quem vai visitar o país pela primeira vez, Cabrera sugere um trio certeiro: o Colonia, pela representatividade; o Provolone, servido fundido na parrilla – inseparável do asado uruguaio, a ponto de o país ter criado a “provolonera” só para grelhá-lo sem grudar; e o Chester da Granja La Cumbre, pela história por trás da receita centenária.

A rota também reserva descobertas para quem gosta de queijos de cabra e de ovelha, com queijarias de nicho como Cerro Negro, La Chèvre Blanche e Aretxaga.

Roteiro: por onde passar

Para montar a viagem, a bacia queijeira uruguaia se concentra no sudoeste e sul do país, o que permite organizar o passeio em três paradas principais:

  1. Colonia – o berço do queijo nacional. Nueva Helvecia (Colonia Suíça), Colonia Valdense e La Paz reúnem produção bovina e caprina, além de concentrar a maior densidade histórica de queijarias.
  2. San José – com destaque para Ecilda Paullier, região de queijos bovinos.
  3. Canelones -Los Cerrillos e Paraje Villa Nueva completam o roteiro com produção ovina e bovina.

Para o viajante brasileiro que já conhece Montevidéu, Punta del Este ou Colonia del Sacramento, a Ruta del Queso é o motivo perfeito para estender a viagem um pouco mais para o interior – trocando os cartões-postais mais óbvios por queijarias familiares, produtores de quinta geração e sabores que resumem, em cada fatia, 165 anos de história.


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