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MACAM: um museu dentro de um hotel, ou um hotel dentro de um museu?

Desde a chegada, ficou claro que eu não estava diante de um hotel convencional, nem de um museu tradicional. O MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins inaugurou, em Lisboa, um conceito ainda raro: reunir, num único espaço, um museu com programação dinâmica e um hotel de cinco estrelas onde cada estadia se prolonga naturalmente na experiência artística. Não é um museu com quartos nem um hotel com obras nas paredes. É uma fusão estrutural entre hospitalidade, cultura e criação.

Instalado no histórico Palácio dos Condes da Ribeira Grande, na Rua da Junqueira, entre Alcântara e Belém, o edifício do século XVIII foi cuidadosamente restaurado pelo ateliê Metro Urbe. A memória arquitetônica foi preservada e agora convive com intervenções contemporâneas que não competem, mas dialogam. A nova ala, revestida com azulejos tridimensionais assinados pela artista Maria Ana Vasco Costa, evoca a tradição portuguesa sem recorrer à nostalgia, uma leitura atual e precisa. Ao todo, são cerca de 13 mil metros quadrados que integram áreas expositivas, auditório, restaurante, café e hotel, numa convivência fluida entre tempos e funções.

A localização reforça essa sensação de transição. Alcântara, antiga zona industrial de Lisboa, vem se consolidando como um dos bairros mais pulsantes da cidade, com galerias, restaurantes e espaços criativos ocupando antigos armazéns. A poucos minutos das Docas e sob a presença constante da Ponte 25 de Abril, o MACAM absorve essa energia de reinvenção urbana.

Macam Lobby do Hotel e entrada do Museu

Minha visita começou pela Gallery 1, onde se desenha um percurso pela história da arte portuguesa. Obras de mestres como José Malhoa, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, Maria Helena Vieira da Silva, Júlio Pomar e Nadir Afonso revelam a construção de uma identidade artística plural. É um recorte consistente que evidencia a profundidade da coleção iniciada por Armando Martins em 1974 — hoje com mais de 600 obras, atravessando do final do século XIX à contemporaneidade.

Na Gallery 2, o discurso se expande. A arte contemporânea surge organizada em núcleos temáticos que promovem diálogos entre gerações e geografias. Ali convivem artistas portugueses e internacionais como Paula Rego, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes, Marina Abramović, John Baldessari, Thomas Ruff e Elmgreen & Dragset. A exposição temporária The Self as Multiple propõe uma reflexão sobre corpo, identidade e percepção, questionando a ideia de um “eu” fixo. Já Between Word and Silence, da coleção convidada de José Carlos Santana Pinto, aposta no rigor conceptual – onde palavra, número e pensamento crítico se entrelaçam com economia formal.

Galeria de Arte – MACAM Museum ©Roberta Miranda

 

1- Marina Abramović – Women Massaging Breasts 2- José de Almada Negreiros – Estudo para pintura mural para os correios dos Restauradores 3 – Filipe Marques Metastases of Memory #01 installation

O hotel, primeiro em Portugal a integrar de forma orgânica um museu de arte contemporânea a um cinco estrelas, dispõe de 64 quartos distribuídos entre o palácio e a ala contemporânea. No edifício histórico concentram-se a maioria das acomodações, incluindo studios com entrada independente, enquanto a nova ala abriga quartos de linguagem mais minimalista.

A nova ala, revestida com azulejos tridimensionais assinados pela artista Maria Ana Vasco Costa ©MACAM

Cada espaço acolhe obras da coleção, criando uma convivência íntima com a arte. Nos primeiros pisos predominam artistas portugueses; nos superiores, internacionais. Na ala nova, destaca-se a presença de artistas da geração pós-25 de Abril, ampliando a leitura da contemporaneidade nacional.

Destaque para os quartos Panoramic, instalados na torre do palácio, com vista de 360 graus sobre Alcântara e o Tejo, uma Lisboa que se revela em toda a sua amplitude. A categoria Palace oferece acesso direto a terraços onde surgem obras site-specific de José Pedro Croft e Angela Bulloch. Já os Artists têm terraços privados voltados para a Ponte 25 de Abril, enquanto os Authentic preservam pé-direito elevado e elementos originais.

MACAM Hotel – Quartos Palace com Terraço: elegância e amplitude em ambientes que revelam o charme do palácio com o privilégio de um terraço privativo. Destaque para a instalação de Angela Bulloch – Pilha Pesada de Cinco Metais
©macan

Os interiores, assinados pela dupla portuguesa Andrez Andrez, revelam uma estética depurada: madeira de carvalho, pedra perlino bianco, linhas precisas. O conforto é tratado com um cuidado preciso, colchões produzidos manualmente com fibras naturais, roupa de cama em algodão egípcio, menu de almofadas e amenities da Benamôr 1925. Um luxo silencioso, onde nada é excessivo.

MACAM Hotel – apartamento Palace e Biblioteca
©Fernando Guerra

Há ainda o MACAM Café, leve e luminoso, ideal para pausas sem pressa, além de auditório, academia e uma loja com edições exclusivas desenvolvidas com marcas portuguesas.

A arte também ocupa os espaços de circulação. Escadas, corredores e áreas comuns são pontuados por obras que surgem quase como descobertas. A biblioteca, com cerca de cinco mil volumes da coleção privada é um convite à permanência que vai além da visita.

A harmonia entre os dois edifícios revela uma fusão elegante de tempos e estilos, onde a arquitetura histórica dialoga com o contemporâneo em perfeita sintonia.
©Roberta Miranda

No topo do novo edifício, a Rooftop Pool Bar oferece uma das vistas mais abertas sobre o Tejo e a Ponte 25 de Abril. Exclusivo para hóspedes, o espaço equilibra arquitetura e paisagem com naturalidade. No piso térreo, de frente para os jardins, o restaurante Contemporâneo, comandado pelo chef Tiago Valente, traduz a portugalidade em pratos que valorizam a sazonalidade e os produtos locais, muitos vindos da própria horta. 

MACAM Hotel – Rooftop

Na antiga capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo, hoje transformada no àCapela – Live Arts Bar, a experiência ganha outro ritmo. Restaurada com rigor, oferece uma programação exclusiva de concertos, performances e a obra site-specific Trinity, do artista espanhol Carlos Aires. O espaço é talvez o mais inesperado do conjunto – íntimo, quase cinematográfico, onde passado e presente coexistem com intensidade.

A antiga capela dessacralizada do Palácio dos Condes da Ribeira Grande ressurge como àCapela Bar.
©Fernando Guerra

O MACAM nasce da paixão de um colecionador, mas ultrapassa o gesto individual para se afirmar como plataforma cultural, hotelaria de excelência e espaço de criação. É um lugar para permanecer e, sobretudo, para habitar a arte.

MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins
Rua da Junqueira 66,
1300-343 Lisboa, Portugal

Site: visite aqui!


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