Há um edifício na Avenida Faria Lima que chama atenção antes mesmo de se revelar o que acontece ali dentro. De formas curvas e cores marcantes, ele se destaca no fluxo da avenida e interrompe, por instantes, a leitura apressada da paisagem.
O Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, não pede agendamento nem ingresso e mantém entrada livre diariamente. A poucos minutos da estação Faria Lima-Pag Bank, o prédio se abre à cidade e se insere no fluxo urbano com naturalidade.
Por dentro, o espaço muda de escala. As exposições de arte, arquitetura e design ocupam as salas sem pressa de se explicar. Há sempre algo em curso: uma leitura de cidade, um recorte de artista, uma aproximação entre linguagens que nem sempre coexistem no mesmo plano.
O centro cultural leva o nome de Tomie Ohtake, artista japonesa que chegou ao Brasil na década de 1930 e construiu aqui uma trajetória central para a arte moderna e contemporânea. Pintora, escultora, gravurista e ceramista, tornou-se uma das figuras mais relevantes da produção artística do país, marcada pela pesquisa de cor, forma e abstração.

Instituto Tomie Ohtake
O que sustenta essa abertura constante é uma escolha institucional clara: manter o acesso gratuito todos os dias. Não como campanha, mas como política contínua. Em 2025, mais de 665 mil pessoas passaram por ali sem pagar ingresso. A projeção para 2026 aponta crescimento, mas o dado mais relevante não está no número, está na repetição possível da visita, na ideia de que o espaço pode ser incorporado ao cotidiano, não apenas a ocasiões especiais.
Isso muda o tipo de relação que se estabelece com o lugar. Não é só “ir ver uma exposição”, mas voltar, atravessar de novo, entrar por hábito, por curiosidade ou por acaso. O Instituto opera nesse intervalo entre programação e vida diária.

O instituto mantém vivo o legado de Tomie Ohtake e de seus filhos Ruy e Ricardo, sustentado pela ideia de que arte e vida se encontram em permanente diálogo.
Hoje, três exposições ocupam o espaço até 24 de maio de 2026. Em “Etcétera”, o arquiteto Isay Weinfeld revisita cinco décadas de produção em um percurso que não se organiza como retrospectiva linear, mas como conjunto de fragmentos de pensamento. Em “Existe uma vida inteira que tu não conhece”, o artista Allan Weber apresenta sua primeira individual institucional em São Paulo, reunindo escultura, fotografia, instalação e vídeo em torno de deslocamentos urbanos e afetivos. Já “Profanações”, de Pablo Lobato, reúne três filmes produzidos entre 2011 e 2015 em formato de videoinstalação, tensionando imagem, tempo e ritual.

“Existe uma vida inteira que tu não conhece”, do artista Allan Weber
A programação não se limita às salas expositivas. Às sextas-feiras, entre 14h30 e 16h30, o educativo ocupa o hall com atividades abertas, sem inscrição prévia. São encontros que partem das exposições em cartaz, mas raramente se encerram nelas — viram conversas, experimentos, exercícios coletivos.
Em diálogo com “Profanações”, acontece a oficina “Quem dança seus males espanta: máscaras-amuleto”, que propõe a criação de máscaras inspiradas em carrancas e na Folia de Reis, usando materiais simples como papelão e tecido. Em outra frente, conectada à mostra de Allan Weber, a oficina “Olha o Kit! Esculpindo sonhos com O Tal do Ale” investiga a estética do funk a partir da construção de objetos em papelão, cruzando linguagem visual, corpo e cotidiano urbano.

PROFANAÇÕES
Obra inédita e exposição homônima de Pablo Lobato
O espaço reúne diferentes formas de permanência além das exposições. Há uma livraria especializada em arte e arquitetura, a Livraria Gaudí, a Loja Tomie, dedicada a publicações e objetos ligados ao instituto, e o restaurante Capim Santo, que ocupa o hall com uma proposta de gastronomia brasileira atravessada por referências contemporâneas.
O endereço é Av. Faria Lima, 201 (entrada pela Rua Coropé, 88), com metrô mais próximo na Estação Faria Lima-Pag Bank, Linha 4–Amarela.





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