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China e Brasil discutem futuro do turismo bilateral em encontro inédito na ABAV Expo

“O turismo é a melhor forma de construir laços de amizade entre países e povos.” A frase, do secretário-geral da Associação de Turismo da China, Ge Lei, resume bem o espírito do Dialogue China-Brazil, primeiro encontro institucional dedicado ao setor de turismo entre os dois países, realizado nesta terça-feira (29) durante a ABAV Expo 2026. O evento lotou – capacidade máxima, um termômetro e tanto do interesse crescente em ampliar o fluxo de viagens entre as duas nações.

Potencial estratégico, mas que exige estrutura

Logo na abertura, Song Wei, vice-diretor-geral do Centro da China de Intercâmbio Cultural Internacional e Promoção do Turismo, destacou que China e Brasil são países com perfis bem distintos, mas com grande potencial de integração – fruto de décadas de trocas culturais e de um momento que classificou como de oportunidades sem precedentes.

Para Ana Carolina Medeiros, presidente da ABAV Nacional, o desafio agora é transformar esse interesse mútuo em uma relação turística mais estruturada e contínua.

Estamos falando de um mercado estratégico, mas esse potencial só se transforma em fluxo quando conseguimos construir as condições para ele acontecer. Isso exige conhecimento sobre o viajante, capacitação do trade, conectividade, produtos adequados, distribuição e um receptivo preparado”, afirmou.

Segundo ela, o caminho passa por um esforço em duas vias: entender melhor o turista chinês e, ao mesmo tempo, ampliar o conhecimento sobre a China entre os profissionais brasileiros do setor. “É assim que transformamos aproximação em confiança, oportunidades em negócios e negócios em um fluxo turístico consistente nos dois sentidos”, completou.

Governo brasileiro já articula parcerias

Augusto Rocha, secretário nacional de Políticas Públicas do Ministério do Turismo, reforçou que o momento é propício para fortalecer laços históricos entre os dois países. Desde maio deste ano, o ministério mantém um grupo de trabalho Brasil-China dedicado a aprofundar parcerias comerciais – iniciativa que já incluiu encontros ministeriais com lideranças chinesas e o lançamento de um guia de investimentos no setor turístico, publicado em mandarim.

Em vídeo, o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, reforçou o Ano Cultural China-Brasil e destacou o turismo como veículo de aprendizado mútuo e aproximação entre os povos, além de instrumento na busca conjunta por um mundo mais justo e sustentável.

A meta chinesa de 190 milhões de visitantes até 2030

Um dos momentos mais aguardados do evento foi a apresentação de Ge Lei sobre o perfil do turista chinês. Ele destacou a relevância do programa de isenção de vistos entre os dois países, que consolida a reciprocidade já adotada pela China desde junho de 2025. Na prática, desde maio de 2026, cidadãos brasileiros e chineses podem transitar entre os dois países sem necessidade de visto por até 30 dias, valendo tanto para turismo quanto para negócios, atividades artísticas, culturais e esportivas. A medida é válida até o final de 2026 – ou seja, quem planeja conhecer a China (ou receber visitantes chineses no Brasil) já pode se programar dentro dessa janela sem burocracia de visto.

Ge Lei também revelou um marco histórico: pela primeira vez, o turismo foi incluído no 15º Plano Quinquenal de Desenvolvimento da China, que estabelece a meta de alcançar 190 milhões de visitantes internacionais até 2030. Outro dado chamou atenção da plateia: 90% dos turistas que já visitaram a China manifestam desejo de retornar ao país.

“O turismo é a melhor forma de construir laços de amizade entre países e povos” – Ge Lei, secretário-geral da Associação de Turismo da China

Vinicius Lummertz, ex-ministro do Turismo e ex-presidente da Embratur, complementou a análise dos dois mercados com referências históricas à Rota da Seda e ao panorama da balança econômica entre os países.

Idioma, conectividade e pagamentos digitais em pauta

O encontro se encerrou com dois painéis. O primeiro, mediado pela repórter da CGTN Li Yu, reuniu Li Xinjian (Instituto de Cultura e Desenvolvimento Turístico de Pequim), Jia Limei (Departamento Municipal de Cultura e Turismo de Pequim), Ana Carolina Medeiros (ABAV Nacional) e Alisson Andrade (Embratur). Entre os temas discutidos, ganhou destaque a necessidade de atenção ao idioma — da sinalização turística aos serviços de guias e ao atendimento hoteleiro.

Já o segundo painel, com mediação da professora e pesquisadora da USP Mariana Aldrigui, reuniu Fábio Mader (CEO da CVC), Marco Di Ruzze (VP do BRT Group), Guilherme Morais (country manager da UnionPay Brasil) e Zou Meiqi(vice-gerente de vendas da Air China Europe), com foco em conectividade aérea, experiência do viajante e facilitação de negócios entre os dois mercados. Um dos destaques ficou por conta dos novos meios de pagamento como facilitadores desse intercâmbio: a UnionPay vem trabalhando na integração entre sua rede de pagamentos chinesa e o Pix brasileiro, projeto-piloto que começou a ser testado em 2026 em parceria com o Banco Central. Na prática, a ideia é permitir que turistas chineses paguem em estabelecimentos brasileiros escaneando o QR Code do Pix diretamente pelo aplicativo do banco que já usam na China, sem precisar de cartão internacional ou câmbio prévio – o mesmo deve valer, no sentido inverso, para brasileiros gastando na China por meio de suas contas locais. A iniciativa tem potencial para facilitar bastante o dia a dia de quem viaja entre os dois países, já que dispensa parte da burocracia tradicionalmente associada a pagamentos internacionais.

Entre metas ambiciosas e novas facilidades de visto e pagamento, o Dialogue China-Brazil deixou um recado claro: o interesse mútuo já tem plano para virar fluxo real de turistas nos próximos anos.


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