Outros valores de PI

No rádio, a música que toca é Cryin, um clássico dos anos 90 da banda Aerosmith. Não há um Mustang cheio de estilo no meu arredor, muito menos a loira sensual, ou o garoto problema que marcaram o videoclipe da canção. A cada quilômetro à frente, o que se apresenta é um cenário bastante diferente do que meus olhos já haviam registrado. Na verdade, tenho a prova do por que o Brasil é visto como um país de tanta diversidade. Pela limitada estrada de mão e contramão, o tempo passa em asfalto de excelente qualidade, o que, num primeiro momento, se mostra bastante atípico, considerando-se que esta é a BR-316, via que interliga o Estado do Piauí, a diferentes regiões, como São Paulo, numa viagem de três dias de carro.

Contudo, desta vez, a direção assinalada no GPS é São Raimundo Nonato, município localizado a 530 quilômetros da capital piauiense, Teresina. Ou se preferir, a oito horas de viagem de carro. Entre uma cochilada e outra, a paisagem é ponto de contemplação, já que nela é mesclada a vastidão de campos de plantio, com casas simples construídas à beira da estrada ou com os animais que insistem em se alimentar à proximidade do trânsito. Após a melhoria da condição financeira dos moradores do entorno, as motos transformaram-se no principal meio de transporte, e os animais de força acabaram abandonados. O resultado é um espaço de acostamento dividido com burros e jumentos.pi3
Panorâmica do Parque Nacional Serra da Capivara

À medida que a pick up acelera na direção sul do Estado, a sensação é a de descoberta. Uma vez que para quem está acostumado aos traços urbanos das grandes metrópoles, essa é a hora de se ver diante de caminhões pipas controlados pelo Exército, responsáveis pelo abastecimento de água de inúmeras famílias – num Estado que detém um dos maiores lençóis freáticos do país-, ou ver a transformação da mata verde em território semiárido. Mas é também neste tipo de oportunidade que se pode ter contato com locais como o Bar do Waldemir Sales, em Água Branca. O típico boteco de beira de estrada – além de parada para um café caseiro com manteiga da Terra – tornou-se um ponto turístico por reunir centenas de cartazes de campanhas políticas, desde 1984, quando um candidato pediu para afixar o seu cartaz. Desde então, a prática tornou-se comum, bastando apenas solicitar a colagem de sua propaganda.

Depois de percorrer os primeiros 279 quilômetros, o freio é acionado em Oeiras. O tempo dentro e fora do carro parecem parados. A cidade de medidas tímidas e pouco mais de 35 mil habitantes foi a primeira capital piauiense, até 1852, contudo, do passado guarda somente o título, posto que à atual capital foram reservados investimentos que lhe permitiram adquirir restaurantes, empreendimentos hoteleiros, ruas asfaltadas e todos os demais aparatos modernos que se espera. Oeiras caminha num compasso diferente, mas também tem seus atrativos, seja na vida calma de seus moradores, seja na delicadeza da Igreja Nossa Senhora da Vitória – a segunda construída no Piauí -, cercada de pedras de paralelepípedo. Como toda região interiorana, o município é um convite à interpretação. Do que? De como seria a vida sem os transtornos comuns das metrópoles: buzinas, pessoas apressadas, trânsito, poluição, pressa…

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Para percorrer este trecho é recomendado carros com tração 4×4

Com mais 251 quilômetros registrados, o carro estaciona, mas desta vez alcança o objetivo inicial: São Raimundo Nonato. Ao passo que adentro as ruas do município de pouco mais de 30 mil habitantes, a impressão é de que estou num daqueles filmes do velho oeste, que destacam a chegada de viajantes de algum destino distante. Nas ruas – ora largas, ora apertadíssimas -, não há prédios, ou qualquer elemento que revele suntuosidade. Na verdade, nesta também cidade interiorana, o encanto reside em momentos particulares, como admirar os moradores que no fim de noite se reúnem na calçada para falar sobre o dia, ou em ser atendido pelo dono numa pizzaria de cadeiras de plástico e pizza deliciosa. Para quem olha para São Raimundo Nonato pela primeira vez, fica praticamente impossível imaginar como esta região de condições econômicas limitadas é dona de um dos mais importantes potenciais turísticos do Estado. Isto porque, é lá que, em nada menos do que 129.140 hectares e 214 quilômetros de perímetro, está abrigado o Parque Nacional Serra da Capivara, fundado em 1979 e tombado Patrimônio Mundial da Unesco em 1991. Se você nunca ouviu falar deste lugar, vale dizer que é aqui que está concentrada a maior coleção de pinturas rupestres do mundo, bem como, é o único parque no Brasil, dedicado a preservar a caatinga, vegetação típica destes arredores.

Para compreender a riqueza do que está – e estava – incrustado em meio às rochas da Serra da Capivara, é relevante dizer que, a partir de uma cooperação arqueológica entre a França e o Brasil, foram realizadas dezenas de pesquisas em diferentes camadas do solo do parque, as quais revelaram pinturas, fogueiras, objetos e utensílios que datariam de 9 mil até 100 mil anos atrás. Dos trabalhos pode ser criada a Fundação Museu do Homem Americano, onde está concentrada parte de um milhão de peças já descobertas. No moderno Museu, aberto ao público, contextualiza-se sobre a presença do primeiro homem das Américas e mostra-se uma discreta evidência dos tesouros que estão espalhados em aproximadamente 1300 sítios arqueológicos, cercados pela caatinga. Mas é quando você decide ir a campo que toda a cena muda, e percebe-se a grandiosidade desta terra em que você está pisando.

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Placas identificam as trilhas, mas é ideal acompanhamento de um guia

Com os recomendados tênis devidamente calçados, o solo de terra vermelha e a sequência de montanhas requerem resistência para a caminhada nas trilhas, e muito esforço físico para escalar rochas, ou para encarar degraus imaginários em gigantescas pedras. O boné se torna seu melhor amigo sob o sol piauiense, enquanto a hidratação constante é obrigatória. Em ótimo estado de conservação – o que inclui placas de sinalização, guaritas com banheiros e lixeiras – o parque recebe 25 mil visitantes anualmente, e limita a entrada à companhia de um guia registrado que conheça as quatro portas de entrada, todas as rotas e, consequentemente, todos os perigos que podem existir para o turista, afinal, a distância entre os 200 sítios abertos à visita pode ser superior a 80 quilômetros, desta forma, é imprescindível ter alguém ao seu lado que impeça que você se perca ou que se arrisque em locais perigosos, principalmente quando se opta pela prática de esportes como o trekking ou o rapel.

A reportagem estava a bordo de um carro 4×2, mas a recomendação é o modelo 4×4, em função do solo em aclives e declives, e também contamos com a colaboração do guia e biólogo Valtércio Torres, que nos levou tanto a paisagens memoráveis, quanto ajudou na identificação da fauna e flora locais, caso do mocó, roedor existente somente na caatinga, raposas, tatus e a temida onça. Em relação à flora, os cactos naturalmente se tornam o maior atrativo, com destaque para o chapéu de frade, que destoa na vista por seu formato arredondado e cor avermelhada, ou a mulatinha, uma erva que alivia coceiras. Passada a ambientação com os animais e a vegetação, embora temer a presença de uma onça seja uma obcessão, já que as pegadas do bicho são facilmente observadas, as descobertas se concentram nas rochas. Isto porque à base de tinta vermelha, pinturas das mais variadas formas surgem para contar o passado. Aqui, os guias ajudam na interpretação de uma ou outra cena, enquanto às demais cabe a sua imaginação buscar uma explicação. As figuras mais recorrentes representam o sexo, a religião, a caça e o nascimento, de forma, que ao longo da caminhada, elas mostram a evolução da maneira como esses homens se viam, já que ao traço são incluídos mais detalhes e mais cores, como o branco e o amarelo.

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A emblemática Pedra Furada

Visitar o parque em sua totalidade implica dispor de pelo menos cinco dias, entre trechos de carro e trilhas a pé, no entanto, em dois dias também é possível fazer um roteiro express e perpassar pelos principais pontos da região, caso por exemplo, do Baixão da Pedra Furada, onde está a formação rochosa que se transformou em um dos símbolos do parque. A cavidade natural no centro da pedra e sua grandiosidade são atraentes às fotos e aos turistas. No entanto, não se compara ao Caldeirão do Rodrigues que possui como hall de entrada, uma escadaria à base de vergalhões encravados entre duas imensas pedras, ambas com uma altura em torno de 60 metros. Mas a falta de recursos de seguranças – como cintos e capacetes – repele a subida dos mais inexperientes, e convém respeitar os limites. Use a energia poupada para escalar até o ponto mais alto que for possível, pois ao chegar ao cume, as recompensas te calam, restando somente apreciar a maneira como a natureza se exibe no verde de suas montanhas e como o simples por do sol desenha sombras. Ver um pequeno mundo das alturas é mágico.

Sugestão de Roteiro
Desfiladeiro da Capivara
Toca do Inferno
Toca da Entrada do Baixão da Vaca
Almoço na Fábrica de Cerâmica
Trilha da Energia
Vista Panorâmica da Trilha da Energia
Baixão da Esperança
Baixão da Pedra Furada
Toca do Boqueirão da Pedra Furada
Pedra Furada
Vista Panorâmica da Pedra Furada
Vista Panorâmica do Caldeirão do Rodrigues

Fábrica de Cerâmica
No interior do parque há um trecho onde funciona uma fábrica de cerâmica, que se destaca pelas estampas inspiradas nas figuras rupestres encontradas nas rochas da Serra da Capivara. Ao todo, 26 artesãos são responsáveis pela produção que varia entre cinco e sete mil peças por mês. Os clientes da fábrica incluem o Pão de Açúcar e a Tok&Stok, e no caso do turistas, que compram lá diretamente, há um simpático desconto de 20%. Há jarras, panelas, pratos, sousplats, canecas, xícaras, copos, vasos, petisqueiras, potes e muitas outras opções de peças. A variação de preço fica entre R$ 5,00 e R$ 130,00.

Preços
Guia: a diária fica em torno de R$ 100,00
Museu do Homem Americano: R$ 8,00
Parque Nacional Serra da Capivara: diária R$ 11,00 (por pessoa)
Almoço no Parque Nacional Serra da Capivara: R$ 15,00 (refeição à vontade)

Para saber mais:
Sebrae – Piauí www.pi.sebrae.com.br


Flávia Lelis, editora de conteúdo online e amante de viagens por natureza

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