Eu Sou Bajan

Apenas a lua brilha quando o relógio aponta a proximidade das 20 horas. Curioso, o olhar se admira diante da pequena multidão que toma conta dos arredores. Impossível saber o que impressiona mais: a multiplicidade de povos concentrados em um pequeno espaço, ou o movimento sensual que se apodera de seus corpos em uma dança muito além de caliente. Brasileiros, ingleses, americanos e moradores locais de todas as idades esquecem as diferenças da língua, e se igualam na sincronia envolvente da música caribenha vinda de um sistema improvisado de som. E de repente, pele colada na pele, e quadril junto a outro quadril tornam-se cena corriqueira, ao mesmo tempo, estimulante aos olhares mais recatados que titubeiam diante da vontade de dar ou não a primeira rebolada. A sequência de cenas se desenrola em Oistins, na proximidade de Christ Church, um espaço de atmosfera marcante, não apenas pela sensualidade demarcada em toda sua extensão, mas por ali, concentrar-se o verdadeiro espírito bajan, identificado na alegria popular, nos sabores das comidas feitas em barracas apertadas, na beleza dos tons de cores da raça negra e visível em todos que exprimem a verdadeira honra de ser um filho de Barbados, ilha a ser amada entre o mar caribenho e o oceano Atlântico. Pelos arredores do pequeno país, é sinônimo de orgulho e respeito estufar o peito para dizer eu sou bajan [se pronuncia, beidjan] algo que implica entender as raízes desta terra e os seus distintos valores.

A ilha colonizada por ingleses entrou definitivamente para o mapa mundial após revelar um de suas mais talentosas cidadãs – a cantora pop Rihanna -, mas não se vale da fama da musa para atrair novos admiradores. Independente da forma como se aterrissa em Barbados, é fato que hora ou outra, você será conquistado. Paixões imediatas costumam se desenvolver diante do mar de azul brilhante, sempre claro e limpo. O mar caribenho reside quase como uma medusa. Para um banho em suas águas calmas, ladeadas por areia branca e poucas pessoas, os locais mais recomendados são as praias Gibbes Bay, em Saint Peter, Sandy Lane, em Saint James e River Bay, em Saint Lucy. A temperatura morna do mar e a grande infraestrutura turística que cerca Dover Beach, em Saint Lawrence Gap, fazem da praia a preferida entre os turistas. Se estiver em busca de tranqüilidade e silêncio, corra para a costa sudeste para sentir a exclusividade da deserta Ginger Bay.

Mesmo que as praias sejam cartões-postais e ponto alto do turismo barbadense, fugir deste clichê turístico acaba por revelar diferentes faces locais, seja caminhando por um centro da capital Bridgetown semelhante ao das cidades de velho oeste, com pontos comerciais coloridos e arquitetura colonial, seja encarando cerca de 30 metros de altura ao deslizar pelos cabos de aço das tirolesas que ligam a floresta do parque Aerial Trek Zipline Adventures, em Saint Thomas. A adrenalina simplesmente surge na chegada a cada uma das oitos plataformas construídas no topo de gigantescas árvores, onde instrutores se revezam na troca dos equipamentos. Entre uma deslizada e outra, a única preocupação é usar as luvas na hora certa para frear. Em Saint Joseph, com os pés no chão, uma visita ao Hunte’s Gardens se converte em uma experiência mais singela, revelada num passeio guiado pelo horticulturista e dono do lugar Anthony Hunte, que conduz seus convidados a uma espécie de floresta particular não-catalogada permeada por palmeiras, uma infinidade de plantas e flores exóticas e Maria Callas, que canta ao fundo. No fim da breve caminhada, é prudente reservar um bom lugar para apreciar as histórias empolgadas de Hunte sobre a aquisição de suas sagradas espécies, enquanto beberica-se uma limonada refrescante de sabor forte. Longe dali, literalmente debaixo do solo, surgem incrustadas em rochas consistentes as dimensões de Harrison’s Cave considerada por grande parte dos moradores locais a grande atração de Barbados. Em cerca de 30 ou 40 minutos, os detalhes de uma imensa caverna são revelados no trajeto dentro de um carrinho que desliza em meio a ruas desenvolvidas ali. A fim de manter as peculiaridades naturais do lugar, as ruas estreitas possuem pouca iluminação, com alguns pequenos pontos cegos – propositais – que pontuam a realidade dos homens que ali trabalhavam há séculos atrás. Ao longo do caminho surgem montanhas de pedras, cristais, estalactites, espelhos d’água…

Dizem que para se conhecer verdadeiramente um lugar é necessário provar de seus costumes, entender sua cultura, conviver na pulsação de seu povo. Em Barbados, parte disto significa mergulhar nos sabores de sua cozinha – de inspiração européia, indiana e asiática -, de onde sai a típica Macarone Pie, um prato que é literalmente uma torta de macarrão bem apimentada, presente na mesa dos verdadeiros bajans como o arroz e feijão na mesa brasileira. Outra delícia é o Flying Fish – em tradução literal, peixe voador – servido frito ou em molho sempre picante. Para acompanhar, a mais tradicional bebida barbadense: o rum. Responsável por parte da economia da ilha, ao lado da exportação de açúcar, a produção do dito “melhor rum do mundo” pode ter seu processo conhecido em locais super charmosos como em Saint Nicholas Abbey, desenhando em meio a grades jardins, delimitado por uma casa que ultrapassa os 350 anos de história, por uma destilaria tomada de barris da bebida e um pequeno bar de onde é possível sair com os sentidos entorpecidos e com algumas garrafas de recordação. Nos bares e restaurantes do país é comum a pluralidade de sabores combinados ao rum, de forma que possa soar ligeiramente estranho tomar uma simples coca-cola, ao não ser que ao copo seja adicionado rum e limão, e a composição torne-se uma cuba libre. Entre os drinques mais pedidos está o rum punch que leva uma mistura de suco de frutas, mas há quem arrisque o rum com gelo ou simplesmente puro.

Com o sol escaldante fora de cena, à noite a busca pelas facetas de Barbados leva ao Beach Extravaganza Dinner Show, na verdade, uma grande mistura de tudo que a ilha pode oferecer: grandes porções de comida [flying fish, macaroni pie, salada de repolho, frango apimentado] somadas a música caribenha cantada ao vivo, com o mar ao fundo, show com homens sobre pernas de pau, um engolidor de fogo e a alegria transbordando em todas as fronteiras.


Flávia Lelis, editora de conteúdo online e amante de viagens por natureza

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