Barcelona se tornou um dos principais símbolos do debate europeu sobre o excesso de turismo. Agora, a Catalunha quer mudar a lógica de crescimento: em vez de buscar cada vez mais visitantes, a estratégia até 2030 prioriza um turismo de maior valor, melhor distribuído pelo território e com impacto mais positivo para as comunidades locais.
A proposta, apresentada em São Paulo pela Agência Catalã de Turismo (ACT) durante uma missão comercial voltada ao trade brasileiro, representa uma mudança na forma de medir o sucesso do turismo: não se trata apenas de quantas pessoas chegam ao destino, mas de quando viajam, onde ficam, quanto movimentam a economia local e o que deixam para as cidades e regiões que recebem esses visitantes.
“Catalunya, millor turisme”
O plano “Catalunya, millor turisme” (Catalunha, melhor turismo) foi estruturado em oito eixos, entre eles sazonalidade, descentralização, sustentabilidade e fidelização. A intenção é distribuir melhor os visitantes ao longo do ano e pelo território, fazendo com que os benefícios econômicos do turismo alcancem regiões e setores que hoje recebem uma parcela menor desse movimento.
A população local também passa a participar da construção da oferta turística e da comunicação do destino. É uma mudança importante em uma região onde Barcelona concentra grande parte da atenção internacional.
Na prática, a própria arrecadação do turismo começa a ter um papel mais amplo. A taxa turística, por exemplo, deixou de ser destinada apenas à promoção do destino e passou a financiar também iniciativas como eventos culturais, climatização de escolas e melhorias no transporte público entre bairros. O objetivo é fazer com que parte da receita gerada pelos visitantes retorne para a vida cotidiana das comunidades.

CCadaques / divulgação / ACT
Por que o Brasil está no radar
Os números ajudam a explicar o interesse da Catalunha pelo mercado brasileiro. Em 2025, o destino recebeu 211,3 mil turistas do Brasil, responsáveis por € 500 milhões em gastos, 43% a mais que no ano anterior. O gasto médio por pessoa chegou a € 2.111, um crescimento de 46%.
O Brasil, portanto, já apresenta características que interessam à nova estratégia catalã: um visitante com gasto médio elevado e potencial para viajar em períodos de menor movimento.
O Brasil é um dos mercados prioritários da Catalunha na América do Sul. Buscamos um visitante que entenda as regras do destino e queira fazer parte de um turismo que também beneficia quem mora aqui, vivenciando experiências únicas por todo o nosso território”, afirma Arantxa Calvera Cosculluela, diretora global da Agência Catalã de Turismo.
A conectividade aérea também favorece esse mercado. A LATAM mantém voos diretos entre São Paulo e Barcelona, com frequência que pode chegar a sete operações semanais em determinados períodos do ano. Há ainda uma vantagem no calendário: o verão brasileiro coincide com meses de menor movimento na Catalunha, abrindo espaço para ampliar a visitação em dezembro, janeiro e fevereiro.
Uma Catalunha além de Barcelona
A estratégia passa, necessariamente, por espalhar o mapa. Com cerca de 32 mil km² e quatro províncias – Barcelona, Girona, Lleida e Tarragona, a Catalunha reúne paisagens e experiências que vão do Mediterrâneo aos Pirineus.
São 580 quilômetros de litoral, com destinos como a Costa Brava e a Costa Dourada. Ao norte, os Pirineus acrescentam uma outra paisagem, com turismo de natureza, esportes de neve e cicloturismo.
O vinho é outro caminho para descobrir regiões menos conhecidas pelos brasileiros. A Catalunha possui 12 eixos de enoturismo consolidados, entre eles o Penedès, a cerca de 45 minutos de Barcelona, o Priorat, conhecido internacionalmente por seus vinhos, e o Costers del Segre, mais próximo dos Pirineus. No Empordà, vinho, gastronomia e litoral se encontram em uma região que também guarda uma forte ligação com Salvador Dalí.
Cultura e gastronomia atravessam todos esses territórios e ajudam a construir uma oferta que não depende exclusivamente de Barcelona. Para o viajante, a mudança de estratégia significa também uma possibilidade de conhecer uma Catalunha menos concentrada nos endereços mais conhecidos e mais conectada às diferentes paisagens, cidades e comunidades que formam o destino.
A proposta até 2030, portanto, não é simplesmente receber menos visitantes. É fazer com que o turismo ocupe mais lugares, aconteça em mais épocas do ano e gere valor para quem viaja e para quem vive na Catalunha.





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