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Compras…no mercado ilegal

Compras…no mercado ilegal

Nunca gostei da terminologia mercado negro. Por motivos óbvios: as pessoas se acostumaram com a associação de coisas ruins a uma cor, e depois a uma raça, criando derivados, como humor negro e a coisa está preta, que no final das contas acabam por contribuir, até os dias de hoje, para o preconceito racial. Nada legal. Nas ruas de Cuba o assunto voltou a minha cabeça. Entre uma foto e outra, uma parada na cidade de Trinidad para tomar uma cerveja gelada – no meu caso, uma Tukola, a coca-cola cubana – e de repente uma oportunidade faz tudo mudar. Chamada por dois amigos de grupo, cruzei em uns 50 passos uma rua de pedra, para desembocar na lojinha de artesanatos de Francisco. Ele, simpático e sorridente, calça chinelos e nos convida a ir adiante. A lojinha é apenas uma fachada. E então veio a sala de sofá roxo chocante, a cozinha onde uma panela com cebola aguardava o feijão, e, por fim, o quarto com roupa de cama amarela, quase dourada.

Sem desconfianças – talvez não tenhamos nos apresentados como jornalistas – Francisco abre suas caixas de charutos Cohiba e Montecristo, duas das marcas mais famosas e caras de Cuba, e para provar sua autenticidade apresenta os produtos em suas embalagens originais. Os olhos brilham, ainda que pequenos silêncios denunciem o constrangimento frente a certeza de se estar fazendo ao ilegal. Em Cuba, é comum que os funcionários recebam parte do salário em dinheiro, e a outra metade em produtos. Se você trabalha na produção de sabonetes, recebe alguns sabonetes. Se trabalha na produção de charutos, leva alguns charutos. Contudo, a condição imposta pelo governo de Fidel, e seguida pelo irmão Raul, é que esses produtos sejam consumidos em família, e nunca comercializados. Burlamos a regra. Em cinco minutos, Francisco vendeu duas caixas de charutos, uma por 5 CUC e outra por 25 CUC, de forma que a uns dez passos dali, esta última caixa era vendida por 120 CUC. Nada mal. Francisco ganhou mais dinheiro para sobreviver num sistema decadente, e três turistas conquistaram o souvenir mais clichê de Cuba. Ao fim da minha primeira vez no tal mercado negro, a sensação é grata.

A discrição da entrada é a mesma da saída. Mas agora, Francisco carrega um sorriso ainda maior no rosto. Ele é só mais um entre milhares de cubanos que buscam alternativas para viver dignamente, bebendo na fonte mais próspera do país: o turismo. Antes que voltemos ao bar da chegada, o vendedor cubano já está novamente em seu posto, à espera de um novo turista que possa ser abordado e convencido a provar o mínimo sabor de ser um fora da lei na Terra de Fidel.


Flávia Lelis, editora de conteúdo online e amante de viagens por natureza

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